Entre nós e as palavras, os emparedados
“Entre
nós e as palavras, os emparedados” resultou de um encontro entre um poema* de
Cesariny e as empenas de um velho colégio abandonado cujas fachadas imponentes,
erectas, avassaladoras, tentam resistir indolentes ao esquecimento. O
emparedamento recente dos vãos por compacta argamassa ainda branca vem-lhe
contudo anunciar uma morte irreparável, profetizada por um antecipado
isolamento, numa descontinuidade com o passado, num presente impossível. Mas
são também estas muralhas assim criadas que querem saltar para o poema de
Cesariny, conjecturando mistérios, penumbras e fantasmas como Elsinore invoca o
castelo de Hamlet. “Entre nós e as palavras” estas paredes encerram “metal
fundente”.
Na
intervenção, cada vão emparedado foi substituído por uma imagem fotográfica.
Estas, distintas e apartadas da realidade, interpõem-se como simulacros entre
nós e os silêncios que se debatem no interior das muralhas, surdamente, à
espera de habitar as palavras. Entre nós e as imagens pululam palavras
“imensas”, palavras “impossíveis de escrever”. As imagens dissolvem o cimento
das muralhas, abrem buracos, continuidades apenas aparentes que de imediato se
apressam novamente a encerrar, interpondo a sua própria materialidade, as suas
próprias palavras. À invocação sobrepõe-se a revelação.
Invocam-se
textos e róis de palavras, o âmago da poesia e a poesia que invade a
existência, o papel da escrita, as “palavras que sobem à boca”, a alquimia,
estilhaços e paredes que inscrevem marcas, calam gritos ou enquadram a simples
existência. Existência invocada nas imagens que nos cruzam diariamente, no
movimento da água, na ausência de gravidade que suspende os objectos no limiar
da realidade, no empilhamento dos corpos abatidos ou na recordação de um tempo
distante num espaço ambíguo. E uma faixa em altura, disposta como um friso na
mole arquitectónica, revela ainda uma ténue continuidade com aquela realidade
na frase que anuncia: “Só se pode ensinar a aprender”.
* You are
welcome to Elsinore, Mário Cesariny, 1957.
José Pedro Reis
1 comentário:
O José Pedro Reis, saindo da cave escura onde enfiam alternadamente Pêcincos para só os deixarem sair nestas ocasiões expositivas? Shame on U2, não é demais repeti-lo.
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